Altar
Estou me conhecendo, olhando para meu altar com as conchas que catei em todas as praias de meus caminhos.
Os anéis e colares que foram de minhas matriarcas, os desenhos de amigos e as pétalas que sequei quando a tristeza em meu peito secava junto. A Iemanjá preta que ganhei embrulhada em papel de presente infantil. As ciganas com os punhos firmes, gargalhando gargalhadas que só meus ouvidos embebidos de amor conseguem captar.
Nem sempre consigo captar o amor que chega.
O futuro já foi em meus dentes uma palavra parida do medo, hoje é apenas um cheguei. Estou aqui firmada com as coisas do presente, acendo uma vela verde, me coloco em postura de entrar na roda para dançar sem respostas, mas feliz pelas perguntas certas que me faço.
Sou da terra e nela risco meu direito de ser feliz.
Não me ocupo com o desastre do medo, minha ocupação é sempre tentar, porque da cuia em que bebo não há tempo para desistir do que me ergue. São das fortes taipas que meu coração se ocupa. Firmo aqui um compromisso com tudo que me guia, sou instrumento e minha adaga é me mover. Dentro da concha o som de minha risada, que agarro e espalho pela bruma.
Meu altar é um coração que mão alguma consegue esmagar, nem mesmo a minha.
Monique Malcher




meu ori precisava ler isso hoje. sua palavra é ofó também posto nesse altar.
Sua escrita é impecável, Monique.